Contos da favela

que as crianças contam

lá na minha escola

 

 

 

Ele era o filho do rei do tráfico

lá no morro que no alto comandava

Ela era filha de outro chefe que no baixo

um duelo de poder ali travava

 

 

Uma história como muitas outras houveram,

casos de amor impossível acontecem na favela

Morreram, quem matou nunca souberam

uma família acusou a outra e mais mortes houveram.

Dizem que até hoje há quem veja o casal vagando.

 

 

 

Romeu e Julieta da favela

Maria Nogueira Martinelli

(Sapeka)

 

 

 

Esvai o amor de mim no pó da aquarela,

retrato tão comum sangrando no gatilho

 sou menos um, sou só mais o outro filho

que morreu inocente neste conto de favela.

 

 

Inocente? de amor, eu sabia irreversível,

mas o laço do meu sangue era o inimigo

queria  amar e a todo instante estar contigo

fala alto o coração se o amor é impossível

 

 

Quem disse que na guerra há ausência do amor?

Se engana! Ele brota mesmo seco sendo o chão

tem a força de uma erva não daninha ao coração

mas arrasa sem a água que é solvente do rancor.

 

 

 

Santos

03/01/2008

 

 

 

 Favelado também ama

Augusta Schimidt

 

 

 

Faz-se o dia no submundo

Onde o sol brilha e a brisa abraça

Como só abraçam os braços do amor

Favelado também ama, sim senhor...

 

 

 

Da incerteza e da pobreza da alma

Da inocência do molambo perdido no mundo

Desnudam-se corpos a roçar pele com pele

Sem rumo e vivendo as margens da própria vida

Com um único direito de sonhar

O favelado ama,

Mas com o dever de nunca esperar

 

 

 

Campinas

04/01/2008

 

 

 

 

Contando mais um conto...
Marilú Santana 
 
 
 
"- Tia, sabe o que vou ser quando crescer?"
(Respiração presa, interessada, quero saber...)
Diga-me anjo, que queres ser, além de grande, quando crescer?
- Um médico, um advogado, um professor? - sorrio...
(Ele levanta, olha pra mim com ar de ameaça
e até acha graça, o pitoquinho!)
- Tiiia, eu lá vejo graça em ser dessa raça que tu falou!
Quinem meu tio, eu vou ser um dia, um matador!
 Bem próxima paro, a mão em seu ombro quase num afago...
(Penso, o seu parente deve trabalhar num frigorífico ou abatedouro,
Digo-lhes que é boa toda profissão digna e honesta)
Ainda em pé bem resoluto me encara e completa:
"Aí eu não sei se ele só mata gente que não presta...
Só sei que todo dia, depois que ele some,
é feliz que ele volta,
daí ele bebe e come só do bom e do mió!"
Olhei em direção ao pequeno
e só aí eu vi como era enorme
a fome de vida de qualquer maneira! 
Vi mais no dia que subi a ladeira...
Ele e o barraco eram no morro
mais que dois gritos de socorro
 semelhante e desigual
um pendia para o chão
o outro para uma ilusão
numa sina semi fatal!
 

 

 

 

Menu

Criação - ©Copyright 2006 - Machado Web Solutions.